sexta-feira, 25 de maio de 2012

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Proposta de gente



I
A boca, calada, não é boca
Não cumpre sua função
A boca é boca enquanto fala
Fora isso, é apenas
proposta de boca.

Exatos, olhos assim não são olhos
(não olham) exatamente,
Fitando o chão
Proposta de olhos
entregue ao mundo.

Os braços tíbios
Envergonhados
Esperando o ônibus no ponto
Quietos. Sem alarmes até a hora certa
(apenas um sinal para o motorista parar).


II
Assim, com a cabeça inclinada
O arremedo de gente se atrasa para o trabalho
Vida que não cumpre a sua função.
Eu devo ter ouvido algum sussurro escapando
Daqueles olhos, não tão olhos, exatamente
Em cima daquela boca quieta, muda!

Ah! Eu devo ter ouvido...
E ouvindo assim, é claro que tudo parece nada:
o ônibus que se atrasa; o sono que custou um pouco mais;
a noite que demorou acabar. Eu devo ter ouvido!

Ah, claro que eu devo ter ouvido esse grito se fabricar lá dentro,
Na usina da vida que tem que escorrer para fora de nós todos os dias
E também, por que não, em dias iguais a esse.
Eu devo ter ouvido um grito correndo nos subterrâneos
Onde correm os ossos, onde escorre o sangue
Um berro se formando no mesmo canto onde se forma o canto.
Eu devo ter ouvido tudo isso.

E que manhã! Essa multidão de seres mudos (por fora)
Tão vizinhos dos galos (por dentro), que, se ouvissem, acordariam
Como o fazem, aliás toda manhã:
e acorda o gado novo que dá leite, e as vacas, e os homens
que separam suas tetas em grupos de três, de quatro;
e acorda essa gente toda que ruma, sem rumo,
aos distritos industriais e aos prédios comerciais,
e às escolas e aos ônibus (esses varais de gente);
e acordam todos esses troncos vazios.


III
E vamos rumando mudos
Para dentro da morte
Da mesma maneira, aliás,
Que o dia invade a noite.

Eu devo ter visto uma vida
E ela devia se arrastar
Nos subterrâneos ali
Como se fosse um esgoto.

Não como um jardim
Que cresce ao lado de um quintal.


IV
A vida devia estar na cidade
Debaixo de cada teto
Dentro de cada casa
Sob qualquer pele
Circulando num fluxo sangüíneo
Menos como uma clepsidra
Mais como uma ampulheta
Levando cabelos brancos
Aos homens.

(é assim que a vida se arrasta
nesse abraço dentro, lá dentro
intestinal, cardíaco
onde se esconde e abraça a morte
sendo ela mesma as duas)


V
A vida é isso mesmo
Ela é o cabelo branco que tentamos evitar
É o sono que custou ir embora e nos fez atrasar
E o mamão amarelecido e podre no balcão da quitanda
Com seu cheiro, com sua nódoa podre escorrida
Em riscos feitos a faca, simetricamente distribuídos
Em números de cinco, para não amargar
Mas que, principalmente, não conseguimos vender.

Deve ter havido um fato qualquer
Acontecendo nos subterrâneos daquele homem atrasado
Mal vestido, fedendo a gente logo pela manhã
Que me fez ter percebido a vida acontecendo
Secretamente, como no mamão que não foi vendido.


VI
Dentro de mim, também, silenciosamente
Deve estar a minha vida escorrendo
Enquanto reparo:
Uma manhã com um espelho em minha frente
Deixando escorrer sua nódoa por cada poro
Num rosto vermelho e triste, mas, principalmente
Calado.

sábado, 5 de maio de 2012

Do incrivelmente pequeno ao infinitamente grande



                Aprendi a ler, lendo quadrinhos. Até os doze anos, minhas leituras se baseavam exclusivamente em autores como John Byrne ou Marv Wolfman. Quando, finalmente li um livro, no sentido mais assertivo da palavra, não foi por uma indicação escolar ou pelas recomendações de uma boa professora que me sugerisse um Machado de Assis ou um José de Alencar, fui por minha conta até uma biblioteca e, sem nenhum método reconhecível, mesmo hoje, quando penso retrospectivamente, mergulhei por entre as estantes de literatura cheias de livros velhos e pouco atraentes e descobri o amor táctil pelo livro material. O único rumo que me guiava era a chamada ficção científica, afinal, era o gênero mais próximo da literatura ricamente ilustrada por artistas pop que me educara até então. Submergi sem método entre as estantes e, quando voltei à tona, trazia dois livros de Isaac Asimov.

                Credito o erro que cometi à minha pouca experiência, mas o fato é que um dos livros que escolhi não era literatura, mas sim uma obra de divulgação de Cosmologia – hoje eu sei que isso também é literatura. Era um livro pequeno, objetivo, agradável, que absorveu com exclusividade dois dias da minha vida. Asimov me apresentou ao universo do que gosto de chamar de Incrivelmente pequeno ao infinitamente grande. Já teve a impressão de que, com os olhos abertos, abrisse novos olhos sobre os velhos? Pois foi assim mesmo, uma nova cortina foi aberta no manto do mundo. Senti-me mais próximo da ciência, e é assim que eu me sinto até hoje. Não que eu a entenda tão bem assim, mas apenas sou apaixonado por ela como um religioso ama um deus qualquer. Amo a Ciência com o mesmo amor com que meus antigos autores a amavam ao inventar suas fantasias em quadrinhos. Era exatamente aquele amor que os amantes devotavam à Lua antes de 1969, antes do homem a conhecer melhor.

                O universo. Esse é o nome do meu primeiro livro que li. Gosto do tamanho do universo, dessa coisa de ser infinito e limitado, mas confesso que a idade dele me frustrou bastante: 15 bilhões de anos. Agora sei que é um pouco menos, mas ainda mantemos os nove zeros perfilados, e acho que foi essa quantidade tão pequena de zeros, essa porção tão mensurável de tempo, que me decepcionou bastante. Eu esperava alguma coisa mais próxima do infinito.

                Uma das últimas frases do filme Bravura Indômita é Um quarto de século é muito tempo. Sim, vinte e cinco anos são mesmo muito tempo, principalmente no século XIX, quando era necessária alguma sorte para se passar dos quarenta, mas não posso deixar de pensar na decepção que a juventude do universo me causou. Vinte e cinco anos é muito tempo, acho que o universo deve ter olhado para baixo com alguma inveja, agora.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Imensidão azul:

Essa piadinha sempre me foi contada por meu amigo, Chinali...
... enfim, transformei-a numa tirinha.